E eis que o despertar vem de cima!

Tudo na vida acontece por um motivo… se por um lado as vezes fico de “orelha murcha” por outro considero-me uma mulher afortunada… nunca me deixaram ser resposta… nunca me deixam ficar muito tempo a remoer na ferida, como se de uma masoquista me tratasse que se diverte enquanto perfura um corte fundo e doloroso com a ponta da unha apenas para sentir a dor fria do toque.
Ontem quando terminei o dia e sai para a rua, dei por mim a respirar o ar e a sentir uma corrente eléctrica a atravessar por mim, percorrendo o meu corpo da cabeça aos pés… conseguia sentir os impulsos eléctricos da terra pela sola dos meus sapatos e dei por mim a sorrir e a pensar… ela está ai e vem com força!
Quando conduzia vieram os primeiros rasgos do céu… finos… frios…luminosos… poderosos na sua magnitude que nos diz com clareza suficiente que nós somos impotentes perante tamanha grandiosidade e força!
A descrição mais bonita que ouvi dos relâmpagos veio pela boca de uma criança que disse:
“Sabes o que são? São os flashes de uma câmara… Deus está a tirar-nos fotos!” Ontem dei por mim a recordar essa e outras frases que estavam tão bem enterradas na minha memória que as julguei esquecidas…
Em África Oya é a Deusa ioruba dos fenómenos climáticos especialmente dos raios e das tempestades destrutivas… tem o encanto persuasivo da transformação. Trás a mudança… o preparar da terra para o semear.
Existiam uns versos para a agraciar que julguei esquecidos na minha mente, até ontem, que li num livro da Deusa nas minhas noites de praia:
“Eu trabalho de modo profundo sempre presente, sempre em movimento.
Eu trabalho de modo dramático com trovões e relâmpagos varrendo e extirpando.
Eu trabalho de modo subtil empurrando e aguilhoando deteriorando.
Eu a rodopio e giro, borrifo e disperso, choco e sacudo, abro caminho para o que tem de vir.
Posso ser insignificante e estupenda, breve ou duradoura, tumulto ou ascensão.
O que eu não posso ser é ignorada”
A força com que elas me bateram ontem deixou-me apática por breves momentos, surda a tudo… alheia ao espaço onde me encontrava até ser desperta pela sonora buzina do carro que esperava atrás de mim que eu arrancasse no sinal…
E quando do céu se abateu por minutos a força fresca e limpa da chuva não consegui evitar as gargalhadas que se seguiram que me fizeram doer a barriga e vir as lágrimas aos olhos.
Perdemos tanto do nosso sossego com coisas pequenas que não nos apercebemos que tudo acontece com o intuito de deixar a terra pronta para ser semeada… preparada para ter uma colheita farta e abundante… e se por algum acaso não o tiver naquela altura por causas alheias a nossa vontade só temos de manter o campo limpo de ervas daninhas e pronto para uma nova cultura.
Não acredito que tudo passa… isso seria tão estúpido da minha parte como dizer que o país está a 6 meses de recuperar da bosta que esta inserido… Não!
As coisas não passam… as feridas cicatrizam… deixam de doer… mas ficam lá… marcas da vida que vivemos, das escolhas que escolhemos e dos passos que demos. Provas dadas que vivemos!
É! Ontem no meio do caos do transito… entre a luz crua dos relâmpagos… o barulho cego da chuva e o assalto das memórias foi mesmo assim que me senti.
Viva! Única! Eu!
Namasté!
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Posted on May 17, 2011, in Revelando-me. Bookmark the permalink. 10 Comments.

  1. Completamente de acordo com este maravilhoso texto. Gosto tanto de te ler. 🙂
    Por vezes basta estarmos um bocadinho atentos, e vimos que nada acontece por acaso.

    Utena, és uma pessoal especial. Feliz daquele que não enxerga o mundo apenas com os olhos da cara. Quando olhamos com “outros” olhos, conseguimos enxergar coisas incríveis [mais uma frase que me saiu agora, mas que acho que encaixa bem]. O segredo é estarmos atentos. Temos um corpo para cuidar, da mesma forma que eu acredito que temos uma alma para cuidar.

    Sou capaz de arriscar e dizer que até nós nos termos encontrado aqui na blogosfera, não foi por acaso. Acho que funcionamos em sintonias muito parecidas. 😉

    Beijo grande, grande, de alguém [EU] que nutre uma simpatia sincera por ti. 😉

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  2. Olívia,
    Antes de mais obrigada, por me leres…pelo carinho que expões em cada um dos teus comentários…por veres com olhos da alma aquilo que tanta gente vê com os olhos da visão…
    Como diziam antes mentes são… corpo são e eu acrescento alma equilibrada.
    Sim tal como tu e pela empatia que criamos sou levada a apostar que o nosso encontro não foi acaso… aliás eu não acredito em coincidências.
    Beijo grande com muito carinho para ti
    =)

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  3. Só queria acrescentar que no meu comentário em vez de se ler “simpatia”, leia-se “empatia”. Essa sim, a meu ver é a palavra correcta, tal como tu disseste. 😉
    Muito obrigada pelas palavras Utena.

    Beijo grande*

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  4. Olívia,
    Nada a agradecer…
    Beijinho grande =)

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  5. Sabes? Uma das minhas mais bonitas recordações de infância baseia-se numa trovoada.
    Beira-Baixa, uma casa no meio do pinhal, serras a toda a volta formando um círculo.
    De repente, umas pingas de chuva, poucas, muito poucas, e o som do primeiro trovão ainda bem longe.
    De repente, o céu começa a ser cruzado, em várias direcções por relâmpagos, uns atrás dos outros, numa sequência, numa luminosidade assustadora mas grandiosa.
    Lembro esta maravilha como se a tivesse vivenciado hoje.
    A Natureza em toda a sua plenitude.
    Beijinho.

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  6. Teresa,
    A magnificência da natureza é algo que me deixa sempre muda de espanto e respeito.
    Deve ter sido lindo de se ver mesmo.
    Beijinho =)

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  7. O texto está tão sentido que vou comentar de forma séria, para variar. Mete-me confusão quando começa a chover e as pessoas parecem tontas, tentando proteger a cabeça com a mão, ou com uma pastinha. Da mesma forma franzem os olhos, como se isso impedisse a chuva de lhes cair em cima. É uma dádiva enorme, e um prazer que poucos sabem aproveitar, as gotas a cairem na cara. Já me ajudou muitas vezes, sentir-me em comunhão com a natureza, deixando as gotas cairem-me no rosto. Depois por vezes segue-se a comunhão com a gripe, mas vale a pena. Beijoca!

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  8. Rafeiro,
    Vale sempre a pena sentir no corpo a dádiva da natureza!
    As pessoas incomodam-se com o que não devem… adoro a sensação refrescante de uma bela chuvada no rosto que nos deixa a pingar…
    Mas eu não sou normal =)
    Beijinhos

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  9. Tremendamente inspirador!!

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  10. Nokas,
    E unico para cada um de nós

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