É possivel reencontrar o que não se perde?

Fazia tempo que ela não parava em frente á porta do último destino de tantos… de todos!
Nunca se sentira presa as superstições… aos medos absurdos que abundavam pela pequena comunidade de onde vivia… sempre viu o cemitério como ele era… um reduto onde se despediam dos invólucros de quem se ama… um lugar calmo para se pensar… isolar por instantes o atribulado murmurinho do mundo…
No entanto deixará de lá ir… de se envolver pelo misticismo do velho cemitério da sua aldeia… as conjunturas da vida… os stress do quotidiano levaram a que se afastasse dos vivos e ignorasse os mortos…
Suspirou… sentindo o ar a entrar nos pulmões e a tensão a invadir cada terminação nervosa… era uma má ideia estar ali… nem sequer se conseguia lembrar do porquê de ter lá ido para começo de conversa… parecia ser já há anos e não a pequenos minutos atrás que a tinham acusado de fria… de ter perdido a fé!
Fé! Essa palavra tão facilmente usada… mas tão pouco compreendida!
Será que não se sabe que eventualmente em fases das nossas vidas todos acabamos por a perder?
E poucos têm a sorte de a reencontrar…
Ela era uma mulher de fé… pelo menos já o tinha sido em alguma altura da sua vida… mas sentia-se amargurada demais para ter fé… para mantê-la… é difícil confiar que tudo o que acontece de mau na nossa vida é por uma razão… é difícil manter a fé em vicissitudes que nos deixam atordoadas… atormentadas…
Mas ela manteve por algum tempo… por muito tempo!
Fé inabalável… confiança imperturbável!
Quando foi que a perdeu nem ela sabe… não tinha tempo para pormenores… não se permitia pensar neles…
Agarrou na porta de ferro… abanou a cabeça e entrou… não era mulher para perder tempo em pensamentos… nem se deixar imergir em dúvidas vazias… em sentimentos que a nada levavam!
Mas ouve um tempo que se conseguia reencontrar naquele local… e precisava de se sentir novamente… a conversa de há pouco tinha sido a gota de água… queria reencontrar nos seus olhos a luz de outrora… a força hercúlea que tinha …
Entrou…
Sentiu como se de um momento para o outro o barulho tivesse sido absorvido… filtrado… reconheceu na pele os sussurros das árvores…. Absorveu na alma a paz que tanta falta lhe fazia sem que se desse conta… caminhou devagar… suave… sem querer perturbar o silencio absoluto que se fazia sentir… camaleão por natureza embrenhou-se naquele ambiente até não se saber se era real ou a ilusão criada pelas mentes mais fracas que passavam na rua e dirigiam olhares fugazes de onde ninguém foge…
Chegou ao destino… sempre gostará daquela campa… branca… reluzente sempre corada de lírios brancos que a envolviam com o seu doce perfume… pediu licença e sentou-se!
Céus estava exausta!
Não sabe se terá adormecido mas deu por ela que não se encontrava sozinha… olhou para o lado e sobressaltou-se… do seu lado um idoso sorria… a tranquilidade que expressava no olhar parecia sobrenatural…
Ø  Desculpe não a queria assustar! – Diz o idoso
Ø  Não assustou… só não o ouvi chegar! – Responde ela com incredulidade no olhar
Ø  É normal. Sabe que com a minha idade quase podemos ser considerados etéreos. Posso saber o que faz aqui minha filha? O que procura neste local de repouso eterno?
Ø  Suspirou e disse – Um pouco de paz… o reencontrar de uma fé perdida!
Ø  A fé não se reencontra, não pode requerer o que nunca perdeu.
Ø  Não diga isso. Todos perdemos a fé eventualmente! É difícil acreditar e manter a fé quando o peso que suportamos é tão duro!
Ø  Será? Todos aceitamos o peso que conseguimos transportar. Diga-me? Deixou de sentir prazer no calor do sol no seu rosto pela manha? De sentir alegria no chilrear de um pássaro… de sentir as lágrimas inundar os olhos quando a abraçam… de sentir saudades de quem não vê? Quando foi que se deitou a noite sem ter em si o desejo de ter um dia prospero na manha seguinte… Quando foi que baixou os braços sempre que um obstáculo se cruzava no seu caminho?
Deixou de ter sonhos… de fazer planos… de sentir força e coragem para delinear planos e alcançar metas?
Ø  Não… nunca deixei de sentir isso… cada dia que passa mais força sinto de as alcançar! De as conseguir… Mais coragem tenho de me levantar… de apoiar quem de mim precisa. Mas que tem isso a ver com fé?
Ø  Fé não é depositar nas mãos de um Ser Supremo aquilo que desejamos! Fé é acreditar em nós e saber que não nos iremos desiludir porque se torna as coisas difíceis. Fé é ter confiança que as coisas melhoram… É prosseguir o caminho um passo de cada vez… com sorrisos ou lágrimas… revolta e angustia… mas nunca deixar de os dar! E no fim entregar isso ao poder supremo que nos governa acima de qualquer mesquinhice e saber que nada impede de ser feliz!
Ø  Então eu nunca perdi a minha fé?
Ø  Não se perde aquilo que faz parte do que somos….
As lágrimas que lhe correram pela face deixando sulcos por entre a bem cuidada maquilhagem soube-lhe a mais pura iguaria… ela nunca tinha deixado de ser quem era… não tinha saido do seu caminho….
Enquanto desviava os olhos daquele rosto que tanta alegria lhe tinha trazido para procurar na sua mala um lenço onde pudesse enxugar as suas lágrimas… as primeiras que corriam após tantos anos ouviu-o dizer:
Ø  As lágrimas curam mais a alma que mil duvidas ou batalhas…
Quando olhou novamente para ele… sorrindo… estava só!
Suspirou levantando-se… pensando se sonhara ou se de verdade a conversa tinha tido lugar… deu por si a pensar que não importava… e quando se virava para agradecer a hospitalidade ao dono do lugar que estivera sentada deu por si a olhar para o rosto de quem lhe tinha devolvido o que nunca havia perdido!
Não se assustou nem sentiu medo… apenas sussurrou com um sorriso nos lábios…
 “Até um dia destes… obrigada por tudo!”
Endireitou os ombros e no seu passo decidido saiu e enfrentou o mundo… com uma esperança renovada e uma fé inabalável… pois melhor que reencontrar o que se julga perdido é saber que nunca deixamos de o ter!
Este texto é meu…  imaginado por mim…
Não o vivi… mas “ela” podia ser eu ou tu… por isso não tem nome!
Ela somos nós… que tem coragem de perseguir o que sonhamos independentemente de obstáculos ou dificuldades que nos atravessem no caminho!
Espero que gostem… a mim deu-me muito prazer cria-lo!
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Posted on May 26, 2011, in Contos. Bookmark the permalink. 10 Comments.

  1. E a mim deu-me prazer ler:)

    É enorme. E não falo do tamanho.

    Da fé, posso dizer que nunca a perdi…Não se perde algo que não se tem:(

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  2. A fé é um dos sentimentos mais humanos que existe …

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  3. M.
    Se te deu prazer já é meio caminho andado…
    Quanto a fé se a tua for como a que é retratada no texto… sempre a tiveste.
    =)

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  4. Pulha,
    Sim o sentimento mais altruista baseado apenas na alma de cada um.
    Kiss

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  5. Nem imaginas o bem que me fizeste ao criar este texto…Obrigada!

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  6. Nokas,
    Agora até fiquei comovida minha linda!
    Eu é que agradeço a partilha…
    Beijinhos

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  7. Utena
    concordo com este ponto de vista em relação à fé… alguma devemos ter se acreditamos nas pequenas coisas que a vida nos oferece… os filhos, os amigos, o amor…. e não precisamos ter todas para acreditarmos na fé…
    Muito interessante o teu texto, uma visão muito completa e complexa! Adorei!
    E que façamos a nossa análise onde nos sintamos melhor…embora um cemitério, à partida, seja um pouco estranho, pode ser o sitio ideal para o que pretendemos!!!
    bjs

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  8. CF,
    Tal como a personagem do meu texto, acho o cemitério um sitio bom para refletir… o silêncio é quase irreal… sentimo-nos isolados da lufa do dia-a-dia!

    Manias =)
    beijinhos

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  9. Utena dear, se te deu prazer a escrevê-lo o prazer te garanto foi enorme ao lê-lo. 🙂
    “Ela somos nós…” – é verdade. Todos nós nos identificamos com muito do que fala este texto. Quanto mais te leio, mais gosto de te ler.

    [Sabes o que é que eu acho? Que um dia destes devíamos marcar um café com a Rosinha, contigo e comigo, para estarmos as três. Acredito que seria uma óptima tarde de conversa. Íamos ter conversa até de manhã!]:) 🙂

    Beijo grande Utena*

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  10. Olívia my dear,
    Escrevo como um escape… uma libertação do stress.
    Mas confesso que fico agradada e orgulhosa quando o que escrevo trás prazer em quem me lê!
    Olha uma tarde a três iria ser genial… conversa com fartura…risos… temos de pensar nisso e concretizar!
    Que dizes Rosita?
    Beijinhos

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