Mudança no prenome

Vem… vem ter comigo… hoje não posso porque não estou bem… tens de vir tu… se não vieres não estamos juntos!
Enquanto deixava a água quente do chuveiro percorrer o seu corpo, estas frases martelavam na sua cabeça como uma sinfonia de um louco maestro… incessantes… repetidas… gritadas nos seus ouvidos até a deixar isolada do mundo… do que é… até a deixar sufocada…recolhida… murcha!
As lágrimas estavam gastas… as tentativas absurdas de salvar o que estava morto esgotadas… restava ela na sua pele molhada… envolvida na sua sinfonia louca.
Fechou o chuveiro e saiu da banheira sem se dar ao trabalho de se limpar… queria sentir na pele o frio da água a secar… o corpo arrepiado… os pés deixando marcas no chão…
Vai deixar marcas na madeira? Pensou ela enquanto atravessava a casa às escuras, apenas com pequenos faróis a indicar o caminho até ao quarto… pontos de luz das velas que acendeu!
Adorava velas desde de pequena… velas…incensos… sempre lhe tinham dito:
“Um homem contigo vai ter sorte… és romântica!”
Pois… claro que sim! Eles tinham sorte! Ela? Valia mais andar com uma lanterna escolhia sempre os idiotas… e depois sofria!
Mas sem ninguém saber disso… não ela nunca mostrava isso a ninguém… a não ser talvez á Lua sua companheira da noite… mas ela era de confiança não traia os seus segredos!
Vestiu o top e as calças de dormiu e chegou-se á janela… a noite estava amena e bonita… as estrelas brilhavam, observou enquanto olhava o céu… própria para os amantes… para os apaixonados!
Vem… tens de ser tu a vir… se ouvisse mais isto na sua cabeça ia gritar… e acordar os vizinhos pacatos e sempre tão ordeiros…
Riu-se… até iria ser divertido… mexer um pouco com aquela irritante e ordeira passividade…
Olhou em volta… o seu recanto… tão seu… tão próprio de si… lá estava tudo o que a identificava! Encontrava-se naquele pequeno espaço a sua verdadeira identidade!
Seria isso? Não se deixava conhecer e por isso não consegui encontrar a pessoa certa?
Não! Não e não! Não ia permitir-se assumir novamente a culpa pelas relações falhadas… não conseguiam lidar com ela nem a ter na sua plenitude… perdiam eles… não ela! Não mais… Nunca mais!
Afastou-se da janela… a lua chamava e ela não estava nas melhores condições mentais para sair para a noite! Passo a passo cada vez mais longe da janela… até sentir a parede nas suas costas… fria… dura! Deixou-se escorregar por ela e abraçou os joelhos enquanto suspirava!
Precisava de se distrair…de se abstrair da noite… Mas o esforço para se levantar exigia demasiado dela!
O tempo passou… devagarinho mas seguindo o seu curso… não sabe quanto tempo se deixou ficar ali… olhos secos fixos na lua até o tocar do telemóvel:
– Amiga, estás bem? Voltei agora de férias como estás? Estou morto de saudades tuas… vamos sair… só os dois! Velhos amigos… um bar… e um copo de sangria. Que dizes?
Deu por ela a rir… esse era o S. sempre expansivo mesmo quando não estava nos seus melhores dias…
-Estas ai? Então? Nem te ouço… falei rápido demais foi?
– Olá… estou aqui. Como foi as férias? Divertiste? Obrigada pelo convite mas não me apetece sair nem ir ter contigo a lado nenhum… fica para outro dia sim?
-Não estas bem! Que foi? Não interessa não digas nada. Veste-te eu vou ter contigo! Não reclames precisas de companhia e um ombro amigo. Tenho dois! Eu vou… não tens de vir a lado nenhum. Não tens de vir ter comigo!
Vou desligar e estou ai em 10 minutos.
Deu por ela a sorrir… bem uma mudança de cenário de vem ter comigo… para vou…
Levantou-se sentindo toda a dormência do tempo que esteve imóvel… olhou para si… não lhe apetecia vestir-se!
Encolheu os ombros… queres estar comigo vou assim mesmo!
Som da buzina na rua… onze da noite… sorriu e pensou…
– Ui tenho os vizinhos a saírem da pacatez não tarda… saiu e olhou para o carro.
Ele estava mesmo preocupado com ela… mas e daí o S. sempre fora um bom amigo!
Entrou no carro e disse:
-Não me apeteceu vestir… por isso cá estou na farda de galã… vê lá para onde me levas!
Sorriu… sempre tinha adorado o sorriso dele… aberto franco… sem ser meio sorriso!
Disse:
– Olha este CD que encontrei… tu adoras violino por isso trouxe para ti…
– Mas tu não gostas… não dizes que te faz lembrar gatos a raspar quadros de ardósia?
– Mas tu gostas… não bastará por isso?
– Onde vamos?
-A lado nenhum…
Fechou os olhos e deixou-se guiar pelo suave som da musica… pelo balanço suave do carro… abriu os olhos quando ele parou em frente ao mar!
Abriu os braços e sussurrou:
-Não fales… fica só aqui, pode ser que ajude a fechar um pouco do buraco que tens ai no peito!
Encostou a cabeça no ombro duro do amigo… aconchegou o corpo ao dele… deixou o calor dele a deixar mole e sonolenta…. Fechou os olhos ao som do violino… das ondas… deixou a respiração igualar a dele… ao ritmo da sua mão no seu cabelo…
Ouviu-o dizer baixinho:
-Olha que bonito!
Abriu os olhos…
O sol nascia… dourado… um novo dia raiava…
Sentia-se nova… sorriu para ele e pensou:
Como a mudança no prenome de um verbo faz toda a diferença…
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Posted on June 22, 2011, in Contos. Bookmark the permalink. 12 Comments.

  1. O ombro, o amigo que faz a diferença?

    Claro!

    Beijinho.

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  2. Teresa,

    Existe sempre aqueles que nos acompanham e nem sequer os vemos.

    Beijinho

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  3. Já pensaste escrever um livro? Devias pensar nisso 🙂

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  4. Se eu te dizer que um tempo verbal no meio de uma conversa já a dar para o azedo, entornou o caldo?
    Realmente faz toda a diferença!

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  5. Utena
    Um texto sobre uma amizade desinteressada…
    a mais bela forma de se ser amigo é assim, como descreves.
    Oferecer um ombro para repousar a cabeça e os sonhos…
    Oferecer a música predilecta, mesmo não sendo a sua…
    Só que às vezes essa amizade pode esconder um outro sentimento que se rejeita, devido a uma cegueira momentânea…por estar tão perto´e tão “fácil” de lá chegar…por isso o coração manda esperar…
    Coisas minhas…a imaginação começa a rodar…eu ainda gosto de finais felizes…de reconciliações com a vida e com os outros…e, quiçá algué,me oiça e isto seja um abrir de olhos bem conveniente….lololol
    bjssss amiga

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  6. Nokas,

    Não penso que conseguisse escrever um livro.
    Mas confesso que cada dia mais penso nisso.

    Obrigada,
    Beijinho

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  7. Pink,

    Sim a forma como empregamos as palavras e o tom com que as dizemos faz muita diferença

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  8. CF,

    A vantagem da imaginação é tornar nela realidade as coisas que gostariamos que fossem.
    E tudo seria tão mais facil.

    Beijos

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  9. Utena
    Pois seria, não é?
    Mas nem sempre o coração apela a sentimentos mais “convenientes”…infelizmente,os idiotas tb fazem parte desse apelo…uma pena, ou não!!!???
    C'est la vie! 🙂
    bjs

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  10. palavras bonitas como sempre….
    e tão bom que é uma amizade verdadeira, e termos um ombro que nos ampare quando estamos menos bem…. alguém que nos abrigue, quando o nosso refúgio é abalado por um temporal….. obrigada pelas palavras que aqui deixaste… ´
    mts bjs,
    OlgaM

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  11. CF,

    Uma pena apenas quando não nos serve de lição e caimos no mesmo erro!
    De resto é a vida… vivendo e aprendendo.
    Beijo

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  12. Olga,

    Amizade das que conta… rara… mas existe!
    Obrigada eu pela tua que é dessas mesmo… raras.
    Beijos

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