Dádiva

lost_on_you_by_adoreluna-dag2dda

Este texto foi difícil de escrever, para quem não sabe quando escrevo um conto baseado, como neste caso numa música eu ouço-a repetidamente até não estar mais nada na minha mente a não ser ela… cada riff, cada acorde, cada palavra… é a minha forma de sair de mim e entrar na personagem que vou criando para a encaixar naquilo que me diz a música. Esta talvez porque quem a sugeriu me conhece bem demais acabou por se entranhar e não me deixar ir para uma sala onde me recolho e deixo “a outra sair” e se juntarem a isso o pedido que me fez que foi “nada de nomes” mais difícil se tornou o separar de mentes. Eu sabia que quando propusesse o desafio ele não seria fácil, mas não sou de me negar as coisas… eventualmente deixei que o sentimento me esvaziasse a alma até ficar só eu… o que saiu é o que transcrevo abaixo… considerem um monólogo… uma carta… uma passagem num diário… sem descrições do ambiente envolvente…imaginem-se numa sala, na obscuridade escrevendo ou lendo… e desculpem se defraudar algumas expectativas…

“O som da porta a bater quando entrava na sala demonstrou ao ambiente crepuscular que invadia a sala que a noite não tinha sido fácil, doía-lhe a cabeça das horas que conduziu à chuva no meio da serra, a leste de onde estava, quase entre dois mundo quando tentava não cair nas valetas de ambos os lados da estrada, tão denso era o nevoeiro. Sentia-se perdida…não mentira… sentia-se despedida de todo e qualquer sentimento que conseguisse suportar.
Esfregou os olhos, secos e doridos de tanto fixar…não chorou nas quase 4h de caminho, essas viriam depois quando caísse em si, quando se apercebesse que o orgulho idiota que sempre a cegou a tinha feito perder a oportunidade de ser feliz… mas seriam silenciosas no escuro do quarto. Não ela não demonstrava sentimentos, mesmo que eles a rasgassem de dentro para fora tamanha era a dor que se fazia sentir no seu peito… olhou para baixo quase como se esperasse que o sangue escorresse por entre as chagas abertas que sentia pulsar por debaixo da camisa de seda. Deitou as mãos a camisa e rasgou o fino tecido…sentiu que pelo menos assim poderia despir-se da sua própria pele…que inocente pensamento…como se alguém que apenas têm aquilo que lhe bate no peito, pudesse alguma vez despir-se do que era.
Deixou o olhar perdido vaguear pela sala, tinha mesmo deixado escapar não tinha? Na sua estúpida mania de ser superior a tudo… de ser “ilha ausente” do mundo, tinha deixado ir o único ser que poderia alguma vez cruzar os arames do muro que construiu a sua volta… quase que conseguia sentir a tristeza na voz… quase que sentia as lágrimas a aflorar os olhos vermelhos… não! Ainda era cedo para as deixar vir… levantou-se do sofá directa a casa de banho…entrou na banheira completamente vestida…camisa desventrada entre os ombros doridos da tensão da condução… abriu a torneira e deixou que a água quente caísse… a água do chuveiro… a chuva lá fora que finalmente caia, mas dos olhos nem uma gota… gritou… gritou em plenos pulmões estando literalmente a cagar-se se a velha custa do 2º andar iria chamar a policia ou bater-lhe a porta…deitou a cabeça para trás e gritou…gritou até sentir que a garganta rasgava e as cordas vocais partiam… e deixou a água limpar os últimos vestígios da suprema dádiva… a que lhe tinha dado quando viu que finalmente ele poderia ser feliz com outra pessoa… Tinha tido a sua oportunidade e não a tinha feito sua… não tinha “agarrado o dia”
Foi retirando as peças molhadas do corpo, na sua forma metódica de organizar tudo, terminou o banho e enrolou-se no único “trapo” que não correspondia a sua certa organização…o velho roupão do seu avô sempre a deixou mais composta…mais humana! Deixou os pés arrasta-la até a cozinha onde se despediu dos restos da seda num simbólico “funeral” quando a depositava no caixote do lixo… abriu a máquina e colocou as restantes peças de roupa molhada. “Preciso mesmo de comer alguma coisa… de beber um café pelo menos”, pensou mas deu por si passados cinco minutos apática a olhar para a máquina de café…
Quando finalmente se decidiu deitar, ouviu o bip (tão suave como uma bomba atómica na quietude assustadora da sua mente) e dirigiu-se lentamente, quase como se tivesse envelhecido anos em minutos até a mesinha onde o tinha deixado:
“Não te afastes…não sumas… não te feches em ti”…leu…suspirou clicando na tecla responder deixou os dedos seguirem o seu caminho enquanto escrevia:
“Still here… i will always be here my love… kiss”

Suspirou ciente do que iria sofrer nos dias que viriam e arrastou-se até a cama… e quando finalmente repousava a cabeça no travesseiro sentiu-as chegar, como se fossem uma tempestade arrebatadora que tudo leva e tudo limpa… deixou-as sair!”

Aqui esta a música que o originou. Obrigada a ti Simão pelo desafio
Advertisements

Posted on April 23, 2017, in Uncategorized and tagged , . Bookmark the permalink. Leave a comment.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

loudness

magazine

Pseudo

Para o que der e vier!

O estranho mundo de Dom

...um mundo igual a tantos outros ... ou não !

Divas em Apuros

Um espaço de convívio para verdadeiras Divas.

%d bloggers like this: