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A ti me confesso (conto)

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Sophia sempre se questionou o porque do “ph” no nome, assim que teve idade rumou até a biblioteca da escola, procurou entre os livros empoeirados sob a visão quase de águia da bibliotecária e leu:

“Sophia: Significa “sabedoria” e “sabedoria divina”. Sophia tem origem no grego sophia, que quer dizer literalmente “sabedoria” “

Correu até casa de sorriso nos lábios e disse orgulhosa à mãe o que tinha descoberto do nome, a mãe entre sorrisos lá lhe respondeu que ela era a sua pequena divindade… o pai mais uma vez ignorou tal feito da miúda de 5 anos.

……

O som enferrujado do portão a abrir arrancou Sophia das lembranças… suspirou enquanto erguia os olhos do chão que tão cautelosamente pisava… é! O pai nunca lhe tinha dado muito valor!
Caminhou silenciosa entre aqueles que dormem o sono eterno, perdida nos pensamentos que não a deixavam em paz por nem um segundo desde da discussão da manhã, ainda conseguia sentir na pele os seus gritos entre lágrimas:

“Burro! És um burro injusto… sempre estive do teu lado e tu nunca me soubeste dar o mínimo de valor”

Tinha literalmente chegado ao seu limite, quem diria – pensou com um sorriso triste – que seriam necessários 40 anos para alcançar o seu limite?
Entrou na pequena capela solitária e austera que encontrou e deixou-se sentar cansada…enquanto erguia o olhar sofrido sussurrou:

“Porquê? Consegues tu ao menos explicar-me? Nunca faço nada de jeito… se escrevo sou demasiado ordinária em pensamentos… se fotografo é banal… se lhe explico as coisas nunca confia… se lhe faço, reconfirma até a exaustão… nunca têm uma palavra de apreço ou de carinho… raramente me vê como humana…as vezes sinto que do lado dele, ele vê uma criada reles ao seu dispor! Eu nunca me posso cansar, as dores nunca são más porque ele as tem sempre piores que as minhas e se o meu argumento o desarma grita-me um qualquer palavrão enquanto me ameaça com chantagens pequenas e reles que me fazem sentir a pior das mulheres. É meu pai não deveria ele proteger-me? Incentivar-me? Valorizar-me?”

Estás a ser uma miúda mimada – disse para si mesma – tanta gente com problemas bem piores que tu e vens lastimar-te como se fosse de facto algo com que Ele se importasse… Ele ou Ela… seja lá quem for, tem de certeza mais com que se entreter não achas?

Sorriu tristemente enquanto respondia a si mesma – só gostava de ter uma resposta – por mais que valorizem o que sou as vezes… só as vezes gostava o mesmo dele!

Levantou-se exausta de si mesma, sentia-se uma lagarta cujo casulo está demasiado apertado e já sem espaço para a suster… colocou a mão na porta para a abrir e descobriu uma pequena folha amarela do tempo… semicerrando os olhos há claridade da lua leu:

“Aprende a ser bastante flexível e adaptável. Ao mesmo tempo, trabalha sempre a partir de um conhecimento interior para que não sejas influenciado nem fiques dependente das circunstâncias e condições exteriores…”

Sorrindo agradeceu a resposta e colocou a folha no mesmo sítio onde a tinha encontrado, provavelmente mais alguém deveria necessitar de a ler… suspirou e saiu… Enquanto percorria o ultimo descanso de tantos pensou:

“Afinal não foram precisos 40 anos para chegar ao meu limite… foram preciso 40 anos para aprender que na nossa vida só está quem quer seja ele da família ou não”

E em paz consigo saiu..

PS: O conto é apenas uma chamada de atenção… sim verdade que precisamos de reconhecimento de quem amamos mas mais que isso precisamos de estar em paz com o que somos. Que ela vos seja sempre alcançável.

Namasté _()_

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Dádiva

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Este texto foi difícil de escrever, para quem não sabe quando escrevo um conto baseado, como neste caso numa música eu ouço-a repetidamente até não estar mais nada na minha mente a não ser ela… cada riff, cada acorde, cada palavra… é a minha forma de sair de mim e entrar na personagem que vou criando para a encaixar naquilo que me diz a música. Esta talvez porque quem a sugeriu me conhece bem demais acabou por se entranhar e não me deixar ir para uma sala onde me recolho e deixo “a outra sair” e se juntarem a isso o pedido que me fez que foi “nada de nomes” mais difícil se tornou o separar de mentes. Eu sabia que quando propusesse o desafio ele não seria fácil, mas não sou de me negar as coisas… eventualmente deixei que o sentimento me esvaziasse a alma até ficar só eu… o que saiu é o que transcrevo abaixo… considerem um monólogo… uma carta… uma passagem num diário… sem descrições do ambiente envolvente…imaginem-se numa sala, na obscuridade escrevendo ou lendo… e desculpem se defraudar algumas expectativas…

“O som da porta a bater quando entrava na sala demonstrou ao ambiente crepuscular que invadia a sala que a noite não tinha sido fácil, doía-lhe a cabeça das horas que conduziu à chuva no meio da serra, a leste de onde estava, quase entre dois mundo quando tentava não cair nas valetas de ambos os lados da estrada, tão denso era o nevoeiro. Sentia-se perdida…não mentira… sentia-se despedida de todo e qualquer sentimento que conseguisse suportar.
Esfregou os olhos, secos e doridos de tanto fixar…não chorou nas quase 4h de caminho, essas viriam depois quando caísse em si, quando se apercebesse que o orgulho idiota que sempre a cegou a tinha feito perder a oportunidade de ser feliz… mas seriam silenciosas no escuro do quarto. Não ela não demonstrava sentimentos, mesmo que eles a rasgassem de dentro para fora tamanha era a dor que se fazia sentir no seu peito… olhou para baixo quase como se esperasse que o sangue escorresse por entre as chagas abertas que sentia pulsar por debaixo da camisa de seda. Deitou as mãos a camisa e rasgou o fino tecido…sentiu que pelo menos assim poderia despir-se da sua própria pele…que inocente pensamento…como se alguém que apenas têm aquilo que lhe bate no peito, pudesse alguma vez despir-se do que era.
Deixou o olhar perdido vaguear pela sala, tinha mesmo deixado escapar não tinha? Na sua estúpida mania de ser superior a tudo… de ser “ilha ausente” do mundo, tinha deixado ir o único ser que poderia alguma vez cruzar os arames do muro que construiu a sua volta… quase que conseguia sentir a tristeza na voz… quase que sentia as lágrimas a aflorar os olhos vermelhos… não! Ainda era cedo para as deixar vir… levantou-se do sofá directa a casa de banho…entrou na banheira completamente vestida…camisa desventrada entre os ombros doridos da tensão da condução… abriu a torneira e deixou que a água quente caísse… a água do chuveiro… a chuva lá fora que finalmente caia, mas dos olhos nem uma gota… gritou… gritou em plenos pulmões estando literalmente a cagar-se se a velha custa do 2º andar iria chamar a policia ou bater-lhe a porta…deitou a cabeça para trás e gritou…gritou até sentir que a garganta rasgava e as cordas vocais partiam… e deixou a água limpar os últimos vestígios da suprema dádiva… a que lhe tinha dado quando viu que finalmente ele poderia ser feliz com outra pessoa… Tinha tido a sua oportunidade e não a tinha feito sua… não tinha “agarrado o dia”
Foi retirando as peças molhadas do corpo, na sua forma metódica de organizar tudo, terminou o banho e enrolou-se no único “trapo” que não correspondia a sua certa organização…o velho roupão do seu avô sempre a deixou mais composta…mais humana! Deixou os pés arrasta-la até a cozinha onde se despediu dos restos da seda num simbólico “funeral” quando a depositava no caixote do lixo… abriu a máquina e colocou as restantes peças de roupa molhada. “Preciso mesmo de comer alguma coisa… de beber um café pelo menos”, pensou mas deu por si passados cinco minutos apática a olhar para a máquina de café…
Quando finalmente se decidiu deitar, ouviu o bip (tão suave como uma bomba atómica na quietude assustadora da sua mente) e dirigiu-se lentamente, quase como se tivesse envelhecido anos em minutos até a mesinha onde o tinha deixado:
“Não te afastes…não sumas… não te feches em ti”…leu…suspirou clicando na tecla responder deixou os dedos seguirem o seu caminho enquanto escrevia:
“Still here… i will always be here my love… kiss”

Suspirou ciente do que iria sofrer nos dias que viriam e arrastou-se até a cama… e quando finalmente repousava a cabeça no travesseiro sentiu-as chegar, como se fossem uma tempestade arrebatadora que tudo leva e tudo limpa… deixou-as sair!”

Aqui esta a música que o originou. Obrigada a ti Simão pelo desafio

Uma noite de instinto

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Chega! Por mim chega, pensou Ariana quando batia com a porta de casa e atirava com os sapatos para a sala… sou mulher caramba não sou o robô do escritório…

“Ariana trata dos papeis da reunião”, “Ariana desbloqueia a situação pendente com o fornecedor”, “Ariana podes ficar mais tarde já que não tens vida privada”….

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii – gritou desesperada… eu tenho vida não tenho Jonas? Questiona o gato que entretanto ofendido com o rebuliço se tinha refugiado na última prateleira que vergava com o peso dos livros…

Vá desculpa, não te quis ofender com os meus dramas – suspira – vá, desce lá que te dou uma lata de atum como tu gostas….

Sabes o que vou fazer Jonas? Vou vestir aquele vestido branco que comprei de impulso… vou jantar fora e vou dançar… vou! Não olhes para mim com esses olhos cheios de dúvidas, que eu vou!

Tudo isto pensava Ariana enquanto rodava a palhinha no cocktail que tinha pedido enquanto observava os casais a dançar na pista…

“Fodasse estou mesmo velha para esta merda!” – pensou com um suspiro… no meu tempo era mais agarra e roça agora os putos parece que sofrem choques eléctricos…

Não posso deixar de estar de acordo – responde um homem do lado dela – o problema é que as discotecas de roça hoje em dia estão mais indicadas para a profissão de engate.

Ai a merda pensei alto – Ariana olhou com aqueles olhos para o homem que não pode deixar de replicar com um sorriso – pensou alto sim mas deixe de me olhar com esses olhos de corça assustada… na minha idade já ouvi uns quantos pensamentos bem piores que o seu.

Rafael Machado prazer em conhecer – diz esticando a mão

Ariana… profissional em não saber manter a boca fechada e péssima em seguir instintos – responde a sorrir

Será que és? Fazemos assim, sai comigo daqui e eu prometo te uma noite diferente… dançamos, falamos, vimos o nascer-do-sol e não precisas de me tornar a ver… que me dizes? Estas com um ar que precisa mesmo de algo assim diferente!

Ariana olhou para o estranho e ponderou, na sua vida sempre tinha ponderado…ponderou na faculdade que iria concorrer, na casa que iria comprar, no carro que deveria ter… na empresa onde estava… tudo ponderado milimetricamente…não a seu gosto mas no que estava certo… a única coisa que tinha agido por instinto tinha sido com o Jonas… o gato não enquadrava no que estava “certo” segundo os pais… preto…orelha esfarrapada… metade do rabo cortado… o melhor e mais precioso que tinha…

Então? Prometo que não te mato – sorriu Rafael – Vens com outro cota como tu?

Que se lixe – pensou Ariana e com um sorriso respondeu – Vou! Olha que se lixe… vou!

Saíram para a noite e pela primeira vez, em sabe-se lá quanto tempo Ariana não pensou no que estava certo… comeu o que quis, riu à gargalhada, dançou descalça na fonte da praça principal da cidade… falaram da infância, dos sonhos não vividos, dos desastres amorosos, da vida que gostariam de ter tido… e no fim assistiram já com Rafael a colocar o casaco nos ombros de Ariana ao nascer do sol no miradouro. Só eles e as aves madrugadoras com o seu piar que despertava a cidade para um novo dia.

Gostaria de te ver de novo menina dos olhos de corça – diz Rafael com um sorriso – mas o prometido é prometido e só te pedi esta noite. Quem sabe não nos encontramos por ai?

É quem sabe – responde Ariana – Mas agora tenho mesmo de ir, regressar ao mundo real e ir trabalhar.

Despediram-se com um sorriso e um até breve!

Vai ser lindo disfarçar esta máscara de Panda com um cobre-olheiras, pensou, isto não vai lá nem com tinta plástica nº 2.

 Depois de um duche rápido e de ter optado por deixar o cabelo solto lá se meteu a caminho do trabalho!

“Estava a ver que não vinhas hoje, olha temos aqui uma data de coisas para fazer… blábláblá… entretanto como não vais almoçar a ver se despachas isto o mais rápido possível!”

Certo! Respondeu com um sorriso… a manhã passou, igual a tantas outras, telefonemas, risadas no corredor… a porta abriu sem bater… o costume pensou Ariana.

“Vamos almoçar voltamos daqui a nada, sê uma boa menina e trata disso… “

“Vai almoçar vaca gorda, galinha desmiolada”…

Vejo que continuas a pensar alto menina dos olhos de corça…

O susto foi tão grande que metade dos papeis voaram secretária fora…

Rafael? Gaguejou Ariana… que raio estas aqui a fazer?

Eu trabalho aqui Ariana, há mais de 1 mês… tu é que nunca reparaste em mim com essa tua mania de olhares para o chão! E então almoçamos?

Ariana olhou para os papeis no chão respondendo: almoçamos sim… as boas meninas que arrumem quando chegarem…

E com isto saiu, fechando suavemente a porta nas suas costas!

Nota:
Aqui esta a música que me foi enviada para o desafio… desta vez escolhi um conto mais instintivo, lembrem-se que a vida nem sempre é só rotina nem o que está “certo”. Vivam… sempre!
Obrigada Catarina por aceitares o desafio e pela música escolhida, espero que gostes!

A despedida (1º conto do desafio)

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“Gosto tanto de te ver dormir… acho que nunca te disse isso, mas é da maneira que mais gosto de te observar. Suave…desfazes a ruga que tens na testa… o sorriso trocista que te levanta o lábio e te dá esse perpetuo ar duro… eternamente zangado…uma luta constante de ti contra o mundo. Quando dormes, rejuvenesces… voltas a menino… regressa a paz que deverias ter em cada segundo que tens!”

Aproximo-me lentamente da cama, onde repousas e sento-me devagar…não me apetece despertar-te do teu sonho, fazer-te regressar a dura realidade…

“O meu cavalheiro da armadura luzente… do primeiro ao último momento…Recordas quando me tentaste ajudar a mudar o pneu? A resposta que te dei?

Eu já sou grandinha sabias? E ainda sei mexer no telemóvel, se precisasse de ajuda chamava o reboque…

A tua cara… devia ter tirado uma fotografia…o ar atónito de quem perdeu o ar, teria sido perfeito para um anuncio qualquer de televisão!

Dasse a sério? Um gajo para na chuva para ajudar e é tratado assim… cabra!

Não sei bem quais dos dois é que se começou a rir primeiro…mas sei que fui eu que te convidei para um café a seguir… foram quantas semanas para morarmos juntos? 2? 3?… desculpa a minha memória já não é o que era antes”

Debruço-me e afago-te o cabelo… os caracóis rebeldes que nunca tiveste paciência para domar…

“Acho que a notícia nos abalou aos dois mas mais a ti não foi? Uma coisa que não podias lutar contra…que não dependia só de ti…tenho cancro meu amor, disse-te com os olhos rasos de lágrimas… lutamos! Respondeste tu… lutamos e vencemos… quantos meses de luta… de idas para o hospital e horas seguidas fechados naquela saia enquanto os químicos me corriam e me destruíam a alma? Horas de brincadeiras e música e leituras… horas de sussurros apaixonados… nós vamos ganhar isto… e eu concordava contigo…nunca fui capaz de te ver sofrer…”

Desculpa amor, mas não consegui lutar mais… desculpa se não consegui manter a promessa que me pediste quando estava naquela maldita cama de hospital…

Esperas por mim? Eu volto já….
Espero… vai… eu estarei aqui quando regressares…

Não ia conseguir ir, não contigo do meu lado… mas voltei… estou aqui de volta meu amor… nem que seja para te dizer que estarei a tua espera do lado de lá…. Sê feliz meu amor… tenta pelo menos prometes?”

Levanto-me suavemente e deslizo até a janela do quarto… olho para trás para um último olhar e vejo o que agarras com tanta vontade… a fita que trazia ao pescoço quando heroicamente me mudaste o pneu…

Amo-te… sussurras no teu sonho…
Isso passa… respondo eu em surdina…

 

Nota:
Aqui esta a música que me foi enviada para o desafio… nem sempre o amor vence mas muda sempre a alma de quem o sente e de quem o dá… lembrem-se disso!
Obrigada Domingos por aceitares o desafio e pela música escolhida, espero que gostes!
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